Reflexões sobre “Quanto custa o gratuito”
O texto a seguir traz o pontapé inicial de uma reflexão sobre os rumos atuais de um tipo de relação que foi fundadora da história da música gravada mundial: aquela existente entre hardware/software, entre os aparatos leitores e os respectivos suportes contendo música gravada. A ideia, que não tem nada de inédita, aponta para a forma primordial pela qual a grande indústria fonográfica mundial levou sua atividade aos quatro cantos do mundo, difundindo e forjando padrões culturais, hoje eternizados e reproduzidos por todas as pontas do circuito da música gravada: fazendo o disco rodar, fazendo o fonograma (seja lá em que suporte for) se transformar em música, “engarrafar as nuvens” e depois fazer borbulhar o champagne. Em certa medida, esse processo não pode ser entendido historicamente descolado do â mbito da fábrica propriamente dita, da produção dos aparelhos leitores e dos suportes recheados de música. Interessa-nos especialmente discutir a idéia que hoje ganha fôlego, da imaterialidade da música em tempos do “fim do disco”.
Essa reflexão teve como ponto de partida o artigo “Quanto custa o Gratuito” de Michel Nicolau Netto
Em negrito estão os comentários de Márcia Tosta Dias e em itálico os de Juliano Polimeno.
1) Reli o artigo do Michel Nicolau Neto, pelas idéias (de fato na academia, um dos mais lúcidos das últimas publicações) e porque o mote do “quanto custa o gratuito” é muito bom e chega muito perto do que estamos querendo discutir. Entendo que o nosso desafio não seja o do “quanto custa” e sim o de explorar a hipótese de que os desdobramentos contemporâneos das relações hard/software na música gravada apontam para um tipo de continuidade do imbricamento fundador existente entre as duas esferas, que caracterizou o próprio perfil do business.
Nesse sentido, não encontrei no artigo do Michel essa informação preliminar: além de incorporarem tecnologia produzida por outras empresas, o que distinguiu a grande indústria fonográfica foi o fato de serem elas as produtoras da tecnologia que ofereciam nas duas faces necessárias: máquina e conteúdo, não é mesmo?
Concordo com vc. O Michel acabou não resgatando a relação inicial fundamental de simbiose entre hard/soft na própria industria fonográfica. Minha leitura do “A Casa Edison e seu Tempo” só confirma essa estreita relação, afinal, tudo começou com as “excursões” do fonógrafo pelo mundo, sua apresentação (com cobrança de ingressos) em teatros, etc. No início, hardware e software eram praticamente uma coisa só, uma máquina falante.
A grande dissociação é aquela apresentada em seu livro, quando a estrita produção do software levou a indústria a abrir mão tanto do controle do hardware como boa parte dos meios de produção de software (estúdios, fábricas, etc). Das majors, a Sony talvez seja o único caso à parte, mas mesmo assim, como imenso conglomerado, não conseguiu estabelecer uma comunicação eficaz entre seus setores de hardware e software.
A virada moderna fundamental é mesmo com a Apple e o lançamento do iPod. E não dá pra deixar de pensar no Walkman como início de um processo que vou chamar de “individualização da audição” ou “egocentralização da música” (rs) – e que culturamente tem uma importância enorme.
A introdução do Walkman e sua relação com a produção de fitas cassete é bem interessante. Uma “googlada” rápida me diz que o primeiro Walkman foi lançado pela Sony no Japão em 1979. E mais: em Junho de 1989, 10 anos depois do lançamento, haviam sido fabricados 50 milhões de unidades e em 1992 atingiu 100 milhões. Em 1995, a produção total foi de 150 milhões (Sony History).
Outro dado: em 1983, foram vendidas nos EUA 236 milhões de fitas cassette pré-gravadas, ultrapassando a venda de LPs pela primeira vez.
Resumindo: acho que a Sony precisa de atenção dobrada e talvez seja válida uma comparação com a Apple e os desdobramentos de ambas.
Outro assunto que não poderia estar fora do texto do Michel é a participação cada vez maior das empresas de celular, tanto fabricantes quanto operadoras, que abrem tentáculos para o mundo da música. Os fabricantes (Nokia, Samsung e, de novo, tb a Sony) ainda atuam mais como licenciadores de conteúdo, vendendo celulares com “conteúdo embarcado” como eles mesmos chamam. As operadoras já começarama a atuar tb como produtoras de conteúdo. A Oi é o caso com o qual tenho mais proximidade e a única que lançou seu próprio selo e vai atuar em todo processo: da seleção de artistas, gravação, fabricação, marketing e distribuição. O primeiro lançamento deles nesse formato é uma banda chamada Sobrado 112.
Do ponto de vista da IF a maior parte das vendas digitais no Brasil vem de celulares. Veja o que diz o relatório da ABPD de 2008: “As companhias que reportam estatísticas para a ABPD faturaram em 2008 no mercado de música digital R$ 43,5 milhões. Desse total, 22% foram representados por receitas advindas da Internet (R$ 9,68 milhões) e 78% vendas de música digital via telefonia móvel (R$ 33,82 milhões)”.
Outro ponto de questionamento que estabeleço com o enfoque de Michel, situa-se no momento em que ele deixa o Adorno de lado (p. 148-149). Por mais que a questão teórica não nos mobilize no momento, o marco diz respeito ao fato de que haveria segundo ele, uma diferença entre a formação do gosto (que seguiria caminhos próprios, específicos – discute aí com Malm) e a “capacidade de consagração musical dos anunciantes”. Acho que, por mais que isso esteja mudando, em alguns casos fortemente, (há consagração fora do circuito do mainstream – e este, por sua vez, envolve obrigatoriamente interesses econômicos mainstream), discordo que haja conflito de interesses entre as empresas de tecnologia e a indústria fonográfica (a relação seria só aparentemente conflitante, divergente, pois as chances de negociação e união de esforços é muito grande).
Se efetivar-se, tal conjunção de interesses trará consigo o risco de assistirmos à reedição sofisticada do jabá, na vinculação do interesse do anunciante pelo conteúdo mais requisitado, realimentando o antigo circulo vicioso, só que ampliado, é verdade, muito mais segmentado, variado, porém limitado ao raio em que incide os direitos conexos e de autor. A idéia precisa ser aprimorada, mas aponta para um grande retrocesso…
Não sei como esse movimento poderia ser contemplado no nosso artigo. Me interessa falar daquilo que é o meu assunto (as majors), mas que resvala naquele que ainda não é (quando envolve outros atores sociais antes excluídos da arena): as metamorfoses e os rumos da permanência da conjunção hard/software nas formas atuais de produção de musica gravada pelos grandes conglomerados.
Concordo duplamente com vc e acho que talvez não devamos entrar na esfera do “gosto”. Mas pra não dizer que não falei de flores, vale citar algumas teorias recentes, principalmente a da “cauda longa” que, a grosso modo, previu que a ausência de prateleiras facilitaria a venda de catálogos maiores possibilitando assim que artistas fora do mainstream vendessem bem toda sua obra. A questão é que isso não necessariamente aconteceu e a estrutura/estratégia dos HITS (criada pela IF e não pelas empresas de tecnologia) ainda predomina e define o gosto tanto do público quanto dos anunciantes.
2) O desafio é o de falar com todos os interessados: ao ouvinte/ consumidor/ amante/ downloader de música gravada. Daí que o artigo poderia se centrar muito mais na definição larga do problema, na montagem da equação tendo em vista muito mais as possibilidades de ampliação do repertório cultural/ musical postas pela transformações atuais – suas possibilidades, dilemas, entraves – do que de fato oferecer respostas ou mesmo sugerir algo de consistente.
Sim, e isso é fundamental para nós, para melhor nos situar nessa bagunça toda e realmente traçar um panorama passado/presente/futuro de questões que, a principio, me parecem constantes em uma equação simples: produção X consumo e o papel dos intermediários.
3) o esqueleto aparecerá assim de definirmos essa interface do problema com o leitor e poderia seguir mais ou menos assim:
- apresentação do problema (POR EXEMPLO: quem compra música nas lojas, as tem no celular,faz downloads legalizados e gratuitos em determinados sites, se relaciona com que tipo de panorama diferenciado daquele próprio da cultura de massas ou de predomínio da grande IF na produção e difusão de música gravada? o que se ganha realmente com o fim do disco?). O tal pontapé…
Esse pontapé dá uma tese, mas acho que é por aí. Identificar e – quiçá – categorizar as formas velhas e novas de consumo de música e relacioná-las com a oferta.
- como a IF deixou de ser a única propositora de hard (ou de suas formas, já que suas propostas envolviam as formas que o software iria tomar) no mundo da música gravada.
Sim. E a Apple é central nesse contexto.
- como era e como sempre foi até o digital
A indústria do HIT permanece a mesma.[Uma questão a se encarar: com funciona a indústria do hit fora das majors?] É engraçado observar como no começo do “digital” o principal argumento dos consumidores/defensores era o fato de que agora eles poderiam comprar apenas aquela única faixa que a própria indústria mainstream estabeleceu com o conceito de “música de trabalho”, sem a necessidade de comprar o CD todo. Hoje a própria indústria parece querer se reestruturar em torno do single que lhe foi empurrado goela abaixo pelo digital.
- como passou a ser
Aqui tb tem tese. Vou selecionar alguns casos interessantes para analisarmos.
- como as majors se apropriam da tecnologia desenvolvida por quem um dia foi “pirata” (o artigo meu que saiu na nova edição do livro, fala disso)
Isso é legal. Depois de quase 10 anos de música digital, só agora algumas majors estão montando seus próprios sites de venda direta de música digital. Mas ainda continuam basicamente atuando como licenciantes.
- desafios da manutenção da conjunção hard/soft nos negócios da musica gravada, apesar da movimentação todo que fez escapar das mãos das empresas a primazia da produção e da difusão de musica gravada para o grande público (se é que escapou mesmo!!).
Aqui entra a Sony de novo e aquela notícia que te mandei. Olha aqui uma comparação com a Apple.
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about 7 months ago
Ótima notícia o lançamento do blog! Essa discussão é muito bem vinda. Rapidamente…uma questão: fiquei um pouco inquieto com o par hard/software. Com relação à indústria da era analógica, quando vocês falam em software voces estão se referindo a o quê? Ao conteúdo? Em termos digitais, o software já é, por si, uma forma-conteúdo específica (efetiva a interface homem-máquina de uma determinada maneira) e mantém relações diversas com o conteúdo transmitido. Assim, não seria necessário acrescentar outros elementos a essa composição, já que o conteúdo (música, imagem) não se confunde com o software? Seguimos…abraços,
Henrique
about 6 months ago
Oi, Henrique!
Obrigada pela acolhida! Que bom ter você por aqui!
Muito boa a sua pergunta; inclusive, lança luz sobre uma dimensão pouco explorada do problema, que é a conceitual. Foram trazidos para o estudo da música gravada conceitos/ nomenclatura propostos pelas ciências da informação, sem as necessárias adequações. A primeira vez que tomei contato com a aplicação do duo hard/soft ao estudo dos media, nesses termos, foi com o livro de Patrice Flichy (Las multinacionales del audiosvisual, 1982). Aqui o software (tal como em Flichy) se aproxima, em princípio, à forma-conteúdo que você define “em termos digitais”. De um suporte físico que concentra saberes e técnicas específicos, passa-se ao formato (a dimensão mais estética e artística da coisa) para se chegar finalmente ao conteúdo musical. Uma mesma forma (p.ex. o disco) de configurações físicas e técnicas dadas e seus conteúdos os mais variados. Na parte analógica da história da música gravada, o alcance do conteúdo esteve sempre originalmente vinculado a um hard (quase que sem chance de ser diferente, por mais que seja difícil afirmar categoricamente isso). Mas é a regra geral. Mudanças e melhoramentos técnicos em um, definiam transformações em outro. Esse vínculo garantiu às grandes companhias fonográficas o lugar que sempre ocuparam, inclusive como propositoras majoritárias de conteúdo – essa, no fundo, a questão que de fato interessa para mim! Em certo sentido, tudo isso parece óbvio demais, mas será?
É a distensão nessa vinculação antes inexorável que o digital trouxe definitivamente. Aí sim, o conteúdo não se confunde mais com o software, assim como não está mais obrigatoriamente apegado ao hard. Portanto, essas sintonias finas devem ser identificadas e melhor conceituadas pelos interessados em entender o movimento e, no caso que nos inquieta aqui, para poder perceber iniciativas que buscam reeditar a conjunção – em outras bases e dimensões – como se pode ver em ações de empresas como a Apple (ipod+iTunes) e as companhias de telefonia celular. É isso para começarmos!
Mais uma vez, obrigada!
Beijão,
Marcia
about 6 months ago
Parabéns pelo blog. Vou passar sempre por aqui para acompanhar.
about 6 months ago
Hey, Leoni! Sua visita é uma honra, assim como será a sua parceria no debate! Valeu a acolhida!
Abração,
Marcia
about 6 months ago
Marcia e Juliano,
que honra ter dado o pontapé inicial para esta discussão. Ainda mais uma discussão feita por pessoas tão competentes como vocês (o livro da Marcia é uma referência para mim nesta área) e que tiveram a sabedoria de abrir para o público; uma decisão de quem entende as oportunidades e os limites do mundo digital. Queria de início agradecer sinceramente a menção ao meu texto.
Contudo, não quero aqui voltar ao texto, mas sim partir realmente das discussões que já estão no blog.
Eu acho que pensar na conjunção entre software e hardware é sim importante e vocês têm razão, mas talvez seja importante colocar um terceiro elemento: o fonograma em si, hoje como objeto autônomo de análise. Em um certo momento a indústria fonográfica tinha o controle sobre o hardware (ou seja, definia como seria o sistema reprodutor de som), o software (definia qual seria o suporte no qual o som estaria) e também o fonograma (em termos editoriais, pois, especialmente as majors, possuem grandes editoras, mas também em termos fono-mecânicos). A Marcia mostra muito bem no livro “Os Donos da Voz” quando a IF terceiriza a produção do hardware e de boa parte do software, como o Juliano já apontou. Mas há dois pontos aqui importantes: 1. Esta terceirização não significou descontrole. Ao contrário, os estúdios de um lado e os provedores de tecnologia de outro ainda operavam segundo as ordens da IF. 2. Ao mesmo tempo, as majors aumentavam seu controle sobre os catálogos existentes, comprando diversas editoras e se tornando proprietária de boa parte do patrimônio mundial da música gravada.
O que me parece que ocorre hoje é que se de um lado o software e o hardware passaram a ser controlados pelas indústrias de tecnologia e comunicação, por outro lado as gravadoras/editoras lutam por fazerem seus catálogos valorizados. Se isso cria todo o confronto, que ainda existe entre a IF e as indústrias de tecnologia e comunicação (ITC), também cria a necessidade de entendimento entre elas, pois uma detém o conteúdo (histórico, pois o atual já nem tanto), enquanto a outra detém a forma. Acho que é neste campo de tensão que a análise deve se centrar.
Então podemos reconhecer que as três maiores gravadoras do mundo (SonyBMG), Universal e Warner pertencem a grandes grupos de mídia que controlam os tais software e hardware e que com eles geram muito mais dinheiro do que com o fonograma em si. Vejamos: a maior gravadora do mundo, a Universal que na década de 90 pertencia ao grupo de bebidas Seagram foi comprada (depois da falência deste grupo) pelo maior grupo de mídia da França: Vivendi. Esta Vivendi é a segunda maior operadora de celulares na França (e a maior em outros países, como Marrocos), a maior fabricante de videogames do mundo (a Activision) e dona do Canal +. Um dos videogames que a Activision fabrica é o Guitar Hero. Vejam que Games + Celular + TV são todos sofwares e hardwares de música, que, aliás, hoje se confundem. Bem, juntos estes três braços da Vivendi geraram para o conglomerado em 2008 20 bilhões de euros. A Universal (gravadora e editora) gerou 4,65 bilhões de euros. Me baseio no relatório da Vivendi.
Pego rapidamente o exemplo da Sony. Eletrônicos representam 64% do faturamento; Games 12%. Música…(no relatório está na rubrica “outros”, só descobre se fuçar): 3,9%.
Isso poderia nos levar a pensar que a IF está então subjugada a ITC, ou seja, que o fonograma perde seu valor de mercado e se torna meramente o atrativo para a compra do que interessa. Contudo, como os sociólogos institucionalistas já nos ensinaram a coisa não é assim tão racional. Historica, social e economicamente há motivos suficientes para acreditar que a música manterá seu valor. O patrimônio que representa os 700 mil Copyrights que a UMG detém já é suficiente para esta afirmação. Há uma estrutura que precisa ser mantida, embora modificada. Contudo, o que se vê é que o que restou para a IF em si é realmente o fonograma. O software e o hardware são definidos fora de sua alçada de influência, dentro da ITC. E já não se modela o software como forma de vender mais fonograma, mas se modela o fonograma para se vender mais software e o software para se vender mais hardware, dependendo dos interesses.
Por isso eu argumento que o iTunes é interessante para a Apple pois permite uma forma de “dar” música legalmente em troca da compra do iPod. Digo dar, pois boa parte das músicas “vendidas” no iTunes são feitas por promoção (Pepsi, Coca, etc). Também digo “dar”, pois o software do iTunes permite a organização de music libraries, indepdendente de onde vem a música (pode ser pirata, inclusive). Afinal, a vende música pelo iTunes é limitada a poucos países (no Brasil não se pode), enquanto a venda de iPod é global. Mas também digo dar, pois o iTunes legimita uma prática que permite com que o fonograma possa ser visto como algo sem valor em si. Isso vai legitimar todos os sites de streaming e de UGC (user generated content) que tanto alimenta os desejos dos consumidores do Mac.
Por isso também que neste ano no Midem – a maior feira de música da indústria fonográica – havia 4 mil exibidores a menos do que há 3 anos. Ainda, praticamente todas as palestras (concorridíssimas) eram com pessoas ligadas a ITC. A de encerramento do MidemNet foi feita por representantes do Youtube e do Spotity, ambos “ensinando” a IF como fazer dinheiro na nova realidade. Aliás, uma nova realidade na qual a palavra “vender” desaparece. Agora se fala em “monetizing”. Isso já diz muito.
Acho que já escrevi demais. Perdão pela falta de organização do texto, mas acho que é mais para jogar idéias para o debate mesmo, né?
Abs, Michel.