Archive for February, 2010

Relatório IFPI

A IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) disponibilizou seu relatório anual (relativo a 2009) sobre a indústria da música.

Alguns destaques:

1) No Brasil, lançamentos de álbuns de artistas nacionais pelas cinco maiores gravadoras caíram 80% entre 2004 e 2008

2) As vendas de música no Brasil caíram 40% entre 2005 e 2009, com um impacto desastroso nos investimentos em repertório local. Em 2008 houve apenas 67 álbuns de artistas locais lançados pelas cinco maiores gravadoras – apenas um décimo do total (625) de uma década antes, em 1998. Isso tem sido particularmente danoso, já que 70% da música consumida no país é local.

3) Em fevereiro do ano passado, o Sonora (do Terra) lançou um novo serviço de música on-line (20 horas de stream por mês, gratuito, bancado por anúncios) que atraiu mais de 3 milhões de usuários em menos de um ano

4) O Brasil é o lugar onde mais se vende música via “Comes with Music” (num esquema de download para celular), da Nokia – o programa da fabricante de celular é responsável por 10% das vendas de música digital no país

5) O Brasil é o maior mercado de música digital da América Latina

6) No Brasil, como em outros países, tem havido reuniões, mediadas pelo governo, entre provedores de acesso à internet (ISPs) e as indústrias de conteúdos (discos, filmes etc.)

(via Ilustrada no Pop)

Reflexões sobre “Quanto custa o gratuito”

O texto a seguir traz o pontapé inicial de uma reflexão sobre os rumos atuais de um tipo de relação que foi fundadora da história da música gravada mundial: aquela existente entre hardware/software, entre os aparatos leitores e os respectivos suportes contendo música gravada. A ideia, que não tem nada de inédita, aponta para a forma primordial pela qual a grande indústria fonográfica mundial levou sua atividade aos quatro cantos do mundo, difundindo e forjando padrões culturais, hoje eternizados e reproduzidos por todas as pontas do circuito da música gravada: fazendo o disco rodar, fazendo o fonograma (seja lá em que suporte for) se transformar em música, “engarrafar as nuvens” e depois fazer borbulhar o champagne. Em certa medida, esse processo não pode ser entendido historicamente descolado do â mbito da fábrica propriamente dita, da produção dos aparelhos leitores e dos suportes recheados de música. Interessa-nos especialmente discutir a idéia que hoje ganha fôlego, da imaterialidade da música em tempos do “fim do disco”.

Essa reflexão teve como ponto de partida o artigo “Quanto custa o Gratuito” de Michel Nicolau Netto

Em negrito estão os comentários de Márcia Tosta Dias e em itálico os de Juliano Polimeno.

1) Reli o artigo do Michel Nicolau Neto, pelas idéias (de fato na academia, um dos mais lúcidos das últimas publicações) e porque o mote do “quanto custa o gratuito” é muito bom e chega muito perto do que estamos querendo discutir. Entendo que o nosso desafio não seja o do “quanto custa” e sim o de explorar a hipótese de que os desdobramentos contemporâneos das relações hard/software na música gravada apontam para um tipo de continuidade do imbricamento fundador existente entre as duas esferas, que caracterizou o próprio perfil do business.

Nesse sentido, não encontrei no artigo do Michel essa informação preliminar: além de incorporarem tecnologia produzida por outras empresas, o que distinguiu a grande indústria fonográfica foi o fato de serem elas as produtoras da tecnologia que ofereciam nas duas faces necessárias: máquina e conteúdo, não é mesmo?

Concordo com vc. O Michel acabou não resgatando a relação inicial fundamental de simbiose entre hard/soft na própria industria fonográfica. Minha leitura do “A Casa Edison e seu Tempo” só confirma essa estreita relação, afinal, tudo começou com as “excursões” do fonógrafo pelo mundo, sua apresentação (com cobrança de ingressos) em teatros, etc. No início, hardware e software eram praticamente uma coisa só, uma máquina falante.

A grande dissociação é aquela apresentada em seu livro, quando a estrita produção do software levou a indústria a abrir mão tanto do controle do hardware como boa parte dos meios de produção de software (estúdios, fábricas, etc). Das majors, a Sony talvez seja o único caso à parte, mas mesmo assim, como imenso conglomerado, não conseguiu estabelecer uma comunicação eficaz entre seus setores de hardware e software.

A virada moderna fundamental é mesmo com a Apple e o lançamento do iPod. E não dá pra deixar de pensar no Walkman como início de um processo que vou chamar de “individualização da audição” ou “egocentralização da música” (rs) – e que culturamente tem uma importância enorme.

A introdução do Walkman e sua relação com a produção de fitas cassete é bem interessante. Uma “googlada” rápida me diz que o primeiro Walkman foi lançado pela Sony no Japão em 1979. E mais: em Junho de 1989, 10 anos depois do lançamento, haviam sido fabricados 50 milhões de unidades e em 1992 atingiu 100 milhões. Em 1995, a produção total foi de 150 milhões (Sony History).

Outro dado: em 1983, foram vendidas nos EUA 236 milhões de fitas cassette pré-gravadas, ultrapassando a venda de LPs pela primeira vez.

Resumindo: acho que a Sony precisa de atenção dobrada e talvez seja válida uma comparação com a Apple e os desdobramentos de ambas.

Outro assunto que não poderia estar fora do texto do Michel é a participação cada vez maior das empresas de celular, tanto fabricantes quanto operadoras, que abrem tentáculos para o mundo da música. Os fabricantes (Nokia, Samsung e, de novo, tb a Sony) ainda atuam mais como licenciadores de conteúdo, vendendo celulares com “conteúdo embarcado” como eles mesmos chamam. As operadoras já começarama a atuar tb como produtoras de conteúdo. A Oi é o caso com o qual tenho mais proximidade e a única que lançou seu próprio selo e vai atuar em todo processo: da seleção de artistas, gravação, fabricação, marketing e distribuição. O primeiro lançamento deles nesse formato é uma banda chamada Sobrado 112.

Do ponto de vista da IF a maior parte das vendas digitais no Brasil vem de celulares. Veja o que diz o relatório da ABPD de 2008: “As companhias que reportam estatísticas para a ABPD faturaram em 2008 no mercado de música digital R$ 43,5 milhões. Desse total, 22% foram representados por receitas advindas da Internet (R$ 9,68 milhões) e 78% vendas de música digital via telefonia móvel (R$ 33,82 milhões)”.

Outro ponto de questionamento que estabeleço com o enfoque de Michel, situa-se no momento em que ele deixa o Adorno de lado (p. 148-149). Por mais que a questão teórica não nos mobilize no momento, o marco diz respeito ao fato de que haveria segundo ele, uma diferença entre a formação do gosto (que seguiria caminhos próprios, específicos – discute aí com Malm) e a “capacidade de consagração musical dos anunciantes”. Acho que, por mais que isso esteja mudando, em alguns casos fortemente, (há consagração fora do circuito do mainstream – e este, por sua vez, envolve obrigatoriamente interesses econômicos mainstream), discordo que haja conflito de interesses entre as empresas de tecnologia e a indústria fonográfica (a relação seria só aparentemente conflitante, divergente, pois as chances de negociação e união de esforços é muito grande).

Se efetivar-se, tal conjunção de interesses trará consigo o risco de assistirmos à reedição sofisticada do jabá, na vinculação do interesse do anunciante pelo conteúdo mais requisitado, realimentando o antigo circulo vicioso, só que ampliado, é verdade, muito mais segmentado, variado, porém limitado ao raio em que incide os direitos conexos e de autor. A idéia precisa ser aprimorada, mas aponta para um grande retrocesso…

Não sei como esse movimento poderia ser contemplado no nosso artigo. Me interessa falar daquilo que é o meu assunto (as majors), mas que resvala naquele que ainda não é (quando envolve outros atores sociais antes excluídos da arena): as metamorfoses e os rumos da permanência da conjunção hard/software nas formas atuais de produção de musica gravada pelos grandes conglomerados.

Concordo duplamente com vc e acho que talvez não devamos entrar na esfera do “gosto”. Mas pra não dizer que não falei de flores, vale citar algumas teorias recentes, principalmente a da “cauda longa” que, a grosso modo, previu que a ausência de prateleiras facilitaria a venda de catálogos maiores possibilitando assim que artistas fora do mainstream vendessem bem toda sua obra. A questão é que isso não necessariamente aconteceu e a estrutura/estratégia dos HITS (criada pela IF e não pelas empresas de tecnologia) ainda predomina e define o gosto tanto do público quanto dos anunciantes.

2) O desafio é o de falar com todos os interessados: ao ouvinte/ consumidor/ amante/ downloader de música gravada. Daí que o artigo poderia se centrar muito mais na definição larga do problema, na montagem da equação tendo em vista muito mais as possibilidades de ampliação do repertório cultural/ musical postas pela transformações atuais – suas possibilidades, dilemas, entraves – do que de fato oferecer respostas ou mesmo sugerir algo de consistente.

Sim, e isso é fundamental para nós, para melhor nos situar nessa bagunça toda e realmente traçar um panorama passado/presente/futuro de questões que, a principio, me parecem constantes em uma equação simples: produção X consumo e o papel dos intermediários.

3) o esqueleto aparecerá assim de definirmos essa interface do problema com o leitor e poderia seguir mais ou menos assim:

- apresentação do problema (POR EXEMPLO: quem compra música nas lojas, as tem no celular,faz downloads legalizados e gratuitos em determinados sites, se relaciona com que tipo de panorama diferenciado daquele próprio da cultura de massas ou de predomínio da grande IF na produção e difusão de música gravada? o que se ganha realmente com o fim do disco?). O tal pontapé…

Esse pontapé dá uma tese, mas acho que é por aí. Identificar e – quiçá – categorizar as formas velhas e novas de consumo de música e relacioná-las com a oferta.

- como a IF deixou de ser a única propositora de hard (ou de suas formas, já que suas propostas envolviam as formas que o software iria tomar) no mundo da música gravada.

Sim. E a Apple é central nesse contexto.

- como era e como sempre foi até o digital

A indústria do HIT permanece a mesma.[Uma questão a se encarar: com funciona a indústria do hit fora das majors?] É engraçado observar como no começo do “digital” o principal argumento dos consumidores/defensores era o fato de que agora eles poderiam comprar apenas aquela única faixa que a própria indústria mainstream estabeleceu com o conceito de “música de trabalho”, sem a necessidade de comprar o CD todo. Hoje a própria indústria parece querer se reestruturar em torno do single que lhe foi empurrado goela abaixo pelo digital.

- como passou a ser

Aqui tb tem tese. Vou selecionar alguns casos interessantes para analisarmos.

- como as majors se apropriam da tecnologia desenvolvida por quem um dia foi “pirata” (o artigo meu que saiu na nova edição do livro, fala disso)

Isso é legal. Depois de quase 10 anos de música digital, só agora algumas majors estão montando seus próprios sites de venda direta de música digital. Mas ainda continuam basicamente atuando como licenciantes.

- desafios da manutenção da conjunção hard/soft nos negócios da musica gravada, apesar da movimentação todo que fez escapar das mãos das empresas a primazia da produção e da difusão de musica gravada para o grande público (se é que escapou mesmo!!).

Aqui entra a Sony de novo e aquela notícia que te mandei. Olha aqui uma comparação com a Apple.