Sexta-feira na periferia de São Paulo, João Pedreiro da Silva, 34, levanta da cama às 4 horas da manhã. Coloca a água do café no fogão e liga o rádio em sua estação predileta. Sem muita atenção ou foco, cantarola os versos de um pagode exemplar e, por um breve momento, lembra-se de uma antiga namorada que lhe deu um pé na bunda. Toma o café e em seguida o ônibus para o trabalho na obra pela qual não receberá direitos autorais. E trabalha até o almoço quando liga novamente o rádio e, distraído, executa o arroz com ovo e nem percebe o jabá escondido no canto da marmita quando o mesmo pagode começa a tocar. E João cantarola novamente em quase uníssono. “Isso sim é música”, diz nosso herói antes de aumentar o volume.

Antes do final do expediente, João combina com outros dois amigos a ida ao show do mesmo grupo de pagode que há algumas horas tocava em seu rádio. Um dos amigos diz que não vai, pois não pode arcar com os R$30 do ingresso sem a carteirinha do estudante que nunca foi. No caminho até o ponto de ônibus, João esbarra com um camelô e vislumbra o CD coletânea “O Melhor do Pagode Vol. 21”, cuja curadoria e re-produção foi feita pelo próprio dono da barraca. “Quanto é?”, pergunta João. “1 por R$5, 2 por R$7”. João apanha as moedas no bolso e conta R$3 fora a passagem. “Faz por R$3?”, barganha. O re-produtor fonográfico lembra que não atingiu a meta de vendas do dia para poder pagar sua própria passagem de volta pra casa. “Esse tal de PiTchuPi tá acabando com meu negócio. Essas lanhouse em todo canto…”, observa após conceder o desconto.