Juliano Polimeno

Juliano Polimeno é Graduado em Ciências Sociais pela PUC/SP, Músico, Produtor Musical e CEO da Phonobase Music Services.
Homepage: http://phonobase.com
Posts by Juliano Polimeno
Reforma da Lei de Direitos Autorais
Jun 14th
“Entra em consulta pública nesta segunda-feira, 14 de junho, o anteprojeto de lei que altera a Lei de Direitos Autorais (9.610/98). A proposta apresentada pelo governo federal se baseia na necessidade de harmonizar a proteção dos direitos dos autores e artistas, com o acesso do cidadão ao conhecimento e à cultura e a segurança jurídica dos investidores da área cultural. Esse instrumento de participação social, cujo objetivo é aperfeiçoar o texto, receberá propostas até 28 de julho. Entre aqui e dê sua contribuição ao texto em consulta.”
Pequenos Cotidianos Musicais I
May 1st
Sexta-feira na periferia de São Paulo, João Pedreiro da Silva, 34, levanta da cama às 4 horas da manhã. Coloca a água do café no fogão e liga o rádio em sua estação predileta. Sem muita atenção ou foco, cantarola os versos de um pagode exemplar e, por um breve momento, lembra-se de uma antiga namorada que lhe deu um pé na bunda. Toma o café e em seguida o ônibus para o trabalho na obra pela qual não receberá direitos autorais. E trabalha até o almoço quando liga novamente o rádio e, distraído, executa o arroz com ovo e nem percebe o jabá escondido no canto da marmita quando o mesmo pagode começa a tocar. E João cantarola novamente em quase uníssono. “Isso sim é música”, diz nosso herói antes de aumentar o volume.
Antes do final do expediente, João combina com outros dois amigos a ida ao show do mesmo grupo de pagode que há algumas horas tocava em seu rádio. Um dos amigos diz que não vai, pois não pode arcar com os R$30 do ingresso sem a carteirinha do estudante que nunca foi. No caminho até o ponto de ônibus, João esbarra com um camelô e vislumbra o CD coletânea “O Melhor do Pagode Vol. 21”, cuja curadoria e re-produção foi feita pelo próprio dono da barraca. “Quanto é?”, pergunta João. “1 por R$5, 2 por R$7”. João apanha as moedas no bolso e conta R$3 fora a passagem. “Faz por R$3?”, barganha. O re-produtor fonográfico lembra que não atingiu a meta de vendas do dia para poder pagar sua própria passagem de volta pra casa. “Esse tal de PiTchuPi tá acabando com meu negócio. Essas lanhouse em todo canto…”, observa após conceder o desconto.
Relatório IFPI
Feb 20th
A IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) disponibilizou seu relatório anual (relativo a 2009) sobre a indústria da música.
Alguns destaques:
1) No Brasil, lançamentos de álbuns de artistas nacionais pelas cinco maiores gravadoras caíram 80% entre 2004 e 2008
2) As vendas de música no Brasil caíram 40% entre 2005 e 2009, com um impacto desastroso nos investimentos em repertório local. Em 2008 houve apenas 67 álbuns de artistas locais lançados pelas cinco maiores gravadoras – apenas um décimo do total (625) de uma década antes, em 1998. Isso tem sido particularmente danoso, já que 70% da música consumida no país é local.
3) Em fevereiro do ano passado, o Sonora (do Terra) lançou um novo serviço de música on-line (20 horas de stream por mês, gratuito, bancado por anúncios) que atraiu mais de 3 milhões de usuários em menos de um ano
4) O Brasil é o lugar onde mais se vende música via “Comes with Music” (num esquema de download para celular), da Nokia – o programa da fabricante de celular é responsável por 10% das vendas de música digital no país
5) O Brasil é o maior mercado de música digital da América Latina
6) No Brasil, como em outros países, tem havido reuniões, mediadas pelo governo, entre provedores de acesso à internet (ISPs) e as indústrias de conteúdos (discos, filmes etc.)
(via Ilustrada no Pop)
Reflexões sobre “Quanto custa o gratuito”
Feb 5th
O texto a seguir traz o pontapé inicial de uma reflexão sobre os rumos atuais de um tipo de relação que foi fundadora da história da música gravada mundial: aquela existente entre hardware/software, entre os aparatos leitores e os respectivos suportes contendo música gravada. A ideia, que não tem nada de inédita, aponta para a forma primordial pela qual a grande indústria fonográfica mundial levou sua atividade aos quatro cantos do mundo, difundindo e forjando padrões culturais, hoje eternizados e reproduzidos por todas as pontas do circuito da música gravada: fazendo o disco rodar, fazendo o fonograma (seja lá em que suporte for) se transformar em música, “engarrafar as nuvens” e depois fazer borbulhar o champagne. Em certa medida, esse processo não pode ser entendido historicamente descolado do â mbito da fábrica propriamente dita, da produção dos aparelhos leitores e dos suportes recheados de música. Interessa-nos especialmente discutir a idéia que hoje ganha fôlego, da imaterialidade da música em tempos do “fim do disco”.
Essa reflexão teve como ponto de partida o artigo “Quanto custa o Gratuito” de Michel Nicolau Netto
Em negrito estão os comentários de Márcia Tosta Dias e em itálico os de Juliano Polimeno.
1) Reli o artigo do Michel Nicolau Neto, pelas idéias (de fato na academia, um dos mais lúcidos das últimas publicações) e porque o mote do “quanto custa o gratuito” é muito bom e chega muito perto do que estamos querendo discutir. Entendo que o nosso desafio não seja o do “quanto custa” e sim o de explorar a hipótese de que os desdobramentos contemporâneos das relações hard/software na música gravada apontam para um tipo de continuidade do imbricamento fundador existente entre as duas esferas, que caracterizou o próprio perfil do business.
Nesse sentido, não encontrei no artigo do Michel essa informação preliminar: além de incorporarem tecnologia produzida por outras empresas, o que distinguiu a grande indústria fonográfica foi o fato de serem elas as produtoras da tecnologia que ofereciam nas duas faces necessárias: máquina e conteúdo, não é mesmo?
Concordo com vc. O Michel acabou não resgatando a relação inicial fundamental de simbiose entre hard/soft na própria industria fonográfica. Minha leitura do “A Casa Edison e seu Tempo” só confirma essa estreita relação, afinal, tudo começou com as “excursões” do fonógrafo pelo mundo, sua apresentação (com cobrança de ingressos) em teatros, etc. No início, hardware e software eram praticamente uma coisa só, uma máquina falante.
A grande dissociação é aquela apresentada em seu livro, quando a estrita produção do software levou a indústria a abrir mão tanto do controle do hardware como boa parte dos meios de produção de software (estúdios, fábricas, etc). Das majors, a Sony talvez seja o único caso à parte, mas mesmo assim, como imenso conglomerado, não conseguiu estabelecer uma comunicação eficaz entre seus setores de hardware e software.
A virada moderna fundamental é mesmo com a Apple e o lançamento do iPod. E não dá pra deixar de pensar no Walkman como início de um processo que vou chamar de “individualização da audição” ou “egocentralização da música” (rs) – e que culturamente tem uma importância enorme.
A introdução do Walkman e sua relação com a produção de fitas cassete é bem interessante. Uma “googlada” rápida me diz que o primeiro Walkman foi lançado pela Sony no Japão em 1979. E mais: em Junho de 1989, 10 anos depois do lançamento, haviam sido fabricados 50 milhões de unidades e em 1992 atingiu 100 milhões. Em 1995, a produção total foi de 150 milhões (Sony History).
Outro dado: em 1983, foram vendidas nos EUA 236 milhões de fitas cassette pré-gravadas, ultrapassando a venda de LPs pela primeira vez.
Resumindo: acho que a Sony precisa de atenção dobrada e talvez seja válida uma comparação com a Apple e os desdobramentos de ambas.
Outro assunto que não poderia estar fora do texto do Michel é a participação cada vez maior das empresas de celular, tanto fabricantes quanto operadoras, que abrem tentáculos para o mundo da música. Os fabricantes (Nokia, Samsung e, de novo, tb a Sony) ainda atuam mais como licenciadores de conteúdo, vendendo celulares com “conteúdo embarcado” como eles mesmos chamam. As operadoras já começarama a atuar tb como produtoras de conteúdo. A Oi é o caso com o qual tenho mais proximidade e a única que lançou seu próprio selo e vai atuar em todo processo: da seleção de artistas, gravação, fabricação, marketing e distribuição. O primeiro lançamento deles nesse formato é uma banda chamada Sobrado 112.
Do ponto de vista da IF a maior parte das vendas digitais no Brasil vem de celulares. Veja o que diz o relatório da ABPD de 2008: “As companhias que reportam estatísticas para a ABPD faturaram em 2008 no mercado de música digital R$ 43,5 milhões. Desse total, 22% foram representados por receitas advindas da Internet (R$ 9,68 milhões) e 78% vendas de música digital via telefonia móvel (R$ 33,82 milhões)”.
Outro ponto de questionamento que estabeleço com o enfoque de Michel, situa-se no momento em que ele deixa o Adorno de lado (p. 148-149). Por mais que a questão teórica não nos mobilize no momento, o marco diz respeito ao fato de que haveria segundo ele, uma diferença entre a formação do gosto (que seguiria caminhos próprios, específicos – discute aí com Malm) e a “capacidade de consagração musical dos anunciantes”. Acho que, por mais que isso esteja mudando, em alguns casos fortemente, (há consagração fora do circuito do mainstream – e este, por sua vez, envolve obrigatoriamente interesses econômicos mainstream), discordo que haja conflito de interesses entre as empresas de tecnologia e a indústria fonográfica (a relação seria só aparentemente conflitante, divergente, pois as chances de negociação e união de esforços é muito grande).
Se efetivar-se, tal conjunção de interesses trará consigo o risco de assistirmos à reedição sofisticada do jabá, na vinculação do interesse do anunciante pelo conteúdo mais requisitado, realimentando o antigo circulo vicioso, só que ampliado, é verdade, muito mais segmentado, variado, porém limitado ao raio em que incide os direitos conexos e de autor. A idéia precisa ser aprimorada, mas aponta para um grande retrocesso…
Não sei como esse movimento poderia ser contemplado no nosso artigo. Me interessa falar daquilo que é o meu assunto (as majors), mas que resvala naquele que ainda não é (quando envolve outros atores sociais antes excluídos da arena): as metamorfoses e os rumos da permanência da conjunção hard/software nas formas atuais de produção de musica gravada pelos grandes conglomerados.
Concordo duplamente com vc e acho que talvez não devamos entrar na esfera do “gosto”. Mas pra não dizer que não falei de flores, vale citar algumas teorias recentes, principalmente a da “cauda longa” que, a grosso modo, previu que a ausência de prateleiras facilitaria a venda de catálogos maiores possibilitando assim que artistas fora do mainstream vendessem bem toda sua obra. A questão é que isso não necessariamente aconteceu e a estrutura/estratégia dos HITS (criada pela IF e não pelas empresas de tecnologia) ainda predomina e define o gosto tanto do público quanto dos anunciantes.
2) O desafio é o de falar com todos os interessados: ao ouvinte/ consumidor/ amante/ downloader de música gravada. Daí que o artigo poderia se centrar muito mais na definição larga do problema, na montagem da equação tendo em vista muito mais as possibilidades de ampliação do repertório cultural/ musical postas pela transformações atuais – suas possibilidades, dilemas, entraves – do que de fato oferecer respostas ou mesmo sugerir algo de consistente.
Sim, e isso é fundamental para nós, para melhor nos situar nessa bagunça toda e realmente traçar um panorama passado/presente/futuro de questões que, a principio, me parecem constantes em uma equação simples: produção X consumo e o papel dos intermediários.
3) o esqueleto aparecerá assim de definirmos essa interface do problema com o leitor e poderia seguir mais ou menos assim:
- apresentação do problema (POR EXEMPLO: quem compra música nas lojas, as tem no celular,faz downloads legalizados e gratuitos em determinados sites, se relaciona com que tipo de panorama diferenciado daquele próprio da cultura de massas ou de predomínio da grande IF na produção e difusão de música gravada? o que se ganha realmente com o fim do disco?). O tal pontapé…
Esse pontapé dá uma tese, mas acho que é por aí. Identificar e – quiçá – categorizar as formas velhas e novas de consumo de música e relacioná-las com a oferta.
- como a IF deixou de ser a única propositora de hard (ou de suas formas, já que suas propostas envolviam as formas que o software iria tomar) no mundo da música gravada.
Sim. E a Apple é central nesse contexto.
- como era e como sempre foi até o digital
A indústria do HIT permanece a mesma.[Uma questão a se encarar: com funciona a indústria do hit fora das majors?] É engraçado observar como no começo do “digital” o principal argumento dos consumidores/defensores era o fato de que agora eles poderiam comprar apenas aquela única faixa que a própria indústria mainstream estabeleceu com o conceito de “música de trabalho”, sem a necessidade de comprar o CD todo. Hoje a própria indústria parece querer se reestruturar em torno do single que lhe foi empurrado goela abaixo pelo digital.
- como passou a ser
Aqui tb tem tese. Vou selecionar alguns casos interessantes para analisarmos.
- como as majors se apropriam da tecnologia desenvolvida por quem um dia foi “pirata” (o artigo meu que saiu na nova edição do livro, fala disso)
Isso é legal. Depois de quase 10 anos de música digital, só agora algumas majors estão montando seus próprios sites de venda direta de música digital. Mas ainda continuam basicamente atuando como licenciantes.
- desafios da manutenção da conjunção hard/soft nos negócios da musica gravada, apesar da movimentação todo que fez escapar das mãos das empresas a primazia da produção e da difusão de musica gravada para o grande público (se é que escapou mesmo!!).
Aqui entra a Sony de novo e aquela notícia que te mandei. Olha aqui uma comparação com a Apple.
Iniciando os trabalhos
Jan 30th
Esse blog nasce de uma série de papos que mantenho (com certas interrupções) com Marcia Tosta Dias desde 2000 quando a procurei para que me auxiliasse na feitura de meu Trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP. De lá pra cá, mantivemos uma amizade pontuada (mas não restrita) pela curiosidade a respeito da indústria da música, da produção ao consumo, das indies às majors, de Abba a Zappa.
Márcia é autora do livro “Os Donos da Voz”, um dos trabalhos mais importantes já feitos no país sobre a indústria fonográfica. Uma das coisas mais interessantes a respeito do “making of” do livro é que sua publicação coincide com a maior crise que a indústria fonográfica já vivenciou (e ainda vivencia). Enquanto Márcia o finalizava, a indústria iniciava sua queda. Percebendo isso, Márcia adicionou um prólogo onde identificava essa “coincidência” e, na segunda edição do livro, estendeu um pouco mais o tema.
Mas as coisas mudaram – e mudam diariamente – de forma radical.
Pois então Márcia me convida para escrever um artigo a 4 mãos sobre essa “nova fase” e sugeri a ela que criassemos esta página para publicar nossas pesquisas, pensamentos, reflexões e, mais importante, ouvir o que outros interessados no assunto tem a dizer. Portanto, sinta-se a vontade para comentar, criticar, elogiar, etc, etc.
